Existe um personagem secreto neste livro. Ele não aparece em nenhum verso, não tem nome e não fala: as únicas provas de sua existência são as epígrafes que separam as partes da obra e a ordem exata em que os poemas foram dispostos. Nem o próprio autor o conhecia, até perceber a mudança de tema e de estilo que se espalhou pelas páginas.
Quem gosta de poesia conhece a decepção de abrir um livro do gênero e encontrar poemas bonitos, mas soltos, sem nada que os una além do nome na capa. Falta coerência, falta percurso, falta a sensação de que uma vida está sendo contada. A alma e sua História nasce justamente dessa costura.
São 62 poemas organizados em partes que avançam como as fases de uma existência. O amor vem primeiro, arrebatado e ultrarromântico, até que a paixão se torna desilusão, e o tema retorna adiante, em memória ou em novas frustrações. Depois chega uma seção melancólica, e com ela a reflexão. A melancolia vira amor à própria poesia, a arte a que o livro dedica sua terceira parte. Na quarta, a busca por sentido: versos modernos, de natureza existencialista, como Humanidade Elétrica. Vêm então uma fase teológica e outra fantástica, a entrada na vida adulta, quando é difícil sustentar a identidade de poeta, e por fim a velhice, com sua sinceridade única.
A rima aqui não é enfeite. Ela é sonoridade e encanto, o fio que conecta versos e estrofes na mente de quem lê e de quem ouve. Ao lado dela há maturidade e grandeza vocabular, simplicidade ao transmitir a mensagem, além de intertextualidades, metáforas e citações que dialogam com a tradição literária, de Vênus e do Olimpo a Gregor Samsa.
Felipe Santos nasceu em Goiânia, onde sempre viveu, e escreve inspirado pelo pai e pela mãe, que também gostam de poesia e escreviam poemas quando jovens. Surpreende ler versos tão tocantes e profundos assinados por um autor ainda tão novo: há técnica em cada página, e técnica costuma vir com o tempo e com muita leitura.
Se preferir, o leitor pode ignorar o personagem e ler apenas um livro de poesia. Mas quem seguir as epígrafes na ordem vai descobrir que estava lendo, o tempo todo, a história de uma alma. Comece pelo primeiro verso.