Em 2007, no Acre, um autodidata sentou-se para contar a própria vida e descobriu que a memória não cabe em um só gênero.
O Ritual do Filho do Sol é o resultado dessa descoberta: um livro de memórias que se assume, desde a primeira página, como obra de ficção. Nele convivem personagens reais com nomes reais, personagens reais sob pseudônimo, o personagem heroicizado e o chamado personagem-legião, aquele que reúne muitas pessoas em um corpo só, além de figuras que existem apenas no mundo virtual ou imaginário.
Quem procura uma narrativa linear vai encontrar outra coisa: mais de 170 fragmentos que funcionam como salas de uma mesma casa. Em uma delas está a Amazônia concreta, com suas seringueiras, suas saúvas, seus carapanãs, suas árvores derrubadas e sua comida. Em outra, a infância e a escola, o nascimento, o pai e a mãe, os professores, as mortes. Adiante, a sátira política e econômica: bancos, burocracia, capitalismo contra meio ambiente, ídolos políticos. E há ainda o andar mais alto da casa, onde o livro discute Deus, teogonia, os três Jesuses, a oração do ateu, o segredo dos maias, o planeta Aquírias e uma cosmologia própria sobre quarks, matéria escura, dimensões, infinito e multiverso.
O ritual que dá título ao livro atravessa esses fragmentos em etapas, dos primeiros dias ao ritual final, costurando memória, mito e invenção em um mesmo movimento.
Renildo Vaz de Araújo é acreano de Sena Madureira, ambientalista e autodidata. Estudou literatura brasileira e internacional por vinte anos antes de se tornar escritor, e esta foi a sua obra de estreia, hoje seguida por outros nove títulos.
São 414 páginas para quem gosta de leitura livre, de humor ácido, de Amazônia e de perguntas grandes. Comece por qualquer página: o livro responde.